
Umas das paixões que tive na vida acabou apenas em um beijo roubado.
A culpa foi minha e da minha "não palavra" e uma palavra muda o rumo, vira o leme, arruma a vida.
O fato é que eu tinha meus 15, 16 anos e era a famosa tabacuda (como é comigo mesma, não é esculhambação e sim auto-avaliação).
Comecei a notar um carinho especial de um de meus amigos, lembro até do dia em que eu estava com febre e ele me abraçou dizendo que estava fazendo isso pra minha febre passar pra ele e assim eu ficaria boa.
Eita que essas coisas do amor são lindinhas demais ... suspiros ...
O meu problema era que todas as mulheres da escola estavam a fim dele, o cara era lindo mesmo e sei lá ... acho que isso me deixou meio cega.
Ele corria pra me abraçar quando me via chegar.
Ele marcava coisas com a minha turma só pra me ver.
Ele me acompanhava em muitas de minhas saídas.
Ele só sentava do meu lado.
Ele faltava aula pra ficar comigo quando eu estava livre.
E eu nunca vou esquecer que um dia ele estava passando as férias numa praia em Natal e simplesmente disse para os pais que passaria o dia fora, pegou um busão e veio bater na minha casa em Recife.
Lembro de quando ele chegou.
Lembro de que sentei em seu colo no jardim da casa de meus pais.
Lembro que ficamos rindo da presepada que ele havia aprontado.
E lembro que em algum momento eu deixei que ele me roubasse um beijo e só.
Naquele dia ele me falou que havia atravessado o mundo (e de busão) só pra estar comigo.
E sei que ele voltou com um vazio tremendo pra casa porque teve de mim menos do que merecia.
Sobretudo porque eu gostava desse menino, rapaz, mas não consegui nem falar nem mostrar absolutamente nada desse afeto.
Medo.
Medo do outro saber que a gente gosta, que a gente sente falta, que a gente tá abestalhado geral.
Ou, em outras palavras, medo de ser feliz.
Nunca tive nada com ele além disso.
Sei que o magoei profundamente, sem querer, mas magoei.
Me magoei também porque me senti altamente boba (e fui mesmo).
E se eu pudesse voltar no tempo, eu diria a ele que ele fez a coisa mais louca, mais linda e mais importante que alguém poderia fazer por quem gosta: ele foi ele mesmo, muito mais que pele, ele foi alma, uma alma apaixonada.
Eu nunca esqueci aquele beijo roubado, obviamente não gosto mais dele, mas ainda amo a atitude daquele menino.
Ainda amo lembrar da viagem que ele fez por mim.
Amo lembrar da gente no jardim sorrindo, brincando.
Naquele dia ele teve de mim menos do que merecia.
Eu fui menos do que estava sentindo e talvez por isso a vida tenha se encarregado de marcar essa lembrança mais fortemente aqui no meu coração.
É como um castigo (dos bons) dados por Deus pra gente tentar se emendar.
"Marcela, tu fez pouco demais, por isso agora tu vai lembrar que poderia ter feito mais pelo resto da vida."
16 anos depois eu ainda sou capaz de ceder apenas um beijo roubado a quem merece minha alma.
Porque - no fundo - eu ainda tenho medo.
E porque - no fundo - eu ainda tenho muito a aprender com esse menino que vive o que sente e que me faz até hoje querer ser uma mulher melhor, todos os dias.
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